Marcelo Antunes

Psicomotricista, Psicoterapeuta Corporal, especialista em Trauma e Fisioterapeuta.

Coordenador da Formação Aión de Psicomotricidade, criador do Metodologia Aión em Psicomotricidade e da Metodologia da Abordagem Psicomotora no Trauma (APT) e Sócio Titular e Institucional da ABP.

E-mail: mvantunes@live.com.

Identificação e contextualização

O Curso de Formação Aión em Psicomotricidade Clínica está baseado em uma metodologia inédita no campo da Psicomotricidade e visa aprofundar conhecimentos e práticas fundamentados no tripé formativo (teórico-metodológico, prático-vivencial e supervisão), conforme recomendado pela Associação Brasileira de Psicomotricidade (ABP).

A Aión Formação em Psicomotricidade tem em sua essência formativa a ciência da Psicomotricidade e, a partir dela, a criação de uma metodologia inédita de investigação, avaliação e intervenção terapêutica no âmbito da Psicomotricidade.

A essência do Método Aión em Psicomotricidade Clínica

A essência da Metodologia Aión, embora esteja embasada em conhecimento científico, favorece o despertar para a delicadeza e o estado da arte, pois a metodologia está embasada na Ontologia do Intimo, que é um conceito teórico-prático na prática formativa, entendido a partir das potências minúsculas do corpo que favorecem o olhar atento e sensível à atenção sutil à linguagem não verbal, construindo um entendimento sobre o agir, pensar e viver a partir de uma olhar para a fenomenologia das pequenas percepções. Com isso, a metodologia fundamenta o que a Formação Aión denomina como microrregulação psicomotora. O conceito de microrregulação psicomotora trata da relação indissociável entre tônus, psiquismo e energia, favorecendo a autorregulação para as potências minúsculas do corpo – os afetos e suas vicissitudes.

Esse é um conceito inédito desenvolvido ao longo do trabalho do psicomotricista formador, que se esmerou na observação das pequenas expressões psicomotoras das crianças. Assim, o uso e o manejo da técnica não se sobrepõem à criação e à liberdade. O método é vivo.

Portanto, a metodologia leva em consideração os mínimos estados da percepção no processo formativo, o que favorece uma observação para as potências minúsculas presentes nas microexpressões corporais, o que exige do psicomotricista uma atitude atenta, sensível e amorosa a essa mínima comunicação e expressão psicomotora.

Esses pressupostos foram criados nas primeiras experiências formativas.

A essência do Método Aión em Psicomotricidade Clínica

  1. O princípio da integralidade – é o princípio da unidade, integrando esquema e imagem corporal. Se baseia na percepção, durante o processo formativo, de quão importante está a organicidade do método em relação à construção da unidade indissociável entre corpo-mente-energia.
  2. O princípio da reciprocidade – o psicomotricista oferece uma atitude amorosa, restaurativa, capaz de desenvolver um estado de observação atenta e inclusiva. O princípio de reciprocidade vai em direção à mutualidade, princípio que orienta o senso de alteridade profunda e incondicional do psicomotricista.  Está conectado com uma condição de nutrição afetiva na relação, incluindo o sentimento de pertencimento e o asseguramento do direito à vida, ao bem comum e à liberdade de expressão.
  3. O princípio de dignidade – dá acesso irrestrito e incondicional ao sentimento de pertencimento e da integração do senso de alteridade e reciprocidade.

Esses princípios reformularam a visão sobre o trabalho no método Aión de Psicomotricidade e a organicidade do pensamento metodológico.

Conexões metodológicas

A essência do método permite ao psicomotricista decodificar as microexpressões corporais que, por sua vez, levam às microrregulações psicomotoras que estão na base da organicidade do pensamento clín ico. O método tem como orientação a decodificação dos processos psicodinâmicos e energéticos do desenvolvimento psicomotor e apresenta ênfase na infância e no desenvolvimento da libido no sentido freudiano3 e no pensamento funcional reichiano.

O método apropria-se das qualidades incomensuráveis do amor, como um modo de desenvolvimento pessoal.

O processo é vivido de modo teórico-metodológico-prático-vivencial, com supervisão, durante os seminários da formação corporal do psicomotricista (ANTUNES, 2022):

Bases do método

Esse método ajuda no estudo de observação minuciosa dos padrões corporais inconscientes no processo de formação. Tornamos por definição a ideia de um inconsciente não mais profundo do que o inconsciente do corpo. O método se dá a partir de um estudo assistido do modo como funcionamos, assim podemos aprofundar os estudos da análise das resistências no processo formativo.

Para o psicomotricista desenvolver esse estado de consciência sobre seu modo de funcionamento, em torno das suas defesas ao nível da expressividade simbólica e corporal, há um estudo assistido durante o processo formacional e esse estudo deve permanecer na formação continuada do psicomotricista, o que leva a entender a importância da formação continuada do psicomotricista, e sobretudo um maior conhecimento sobre si mesmo.

No percurso formativo, os estados de conexão amorosa e profunda são incentivados. Esse estado de atenção sutil à comunicação não verbal , focado na sensopercepção do psicomotricista, permite o asseguramento profundo do sentimento de pertencimento, o que restabelece o senso de dignidade e de conexão afetiva nutridora.

A presença amorosa do psicomotricista permite um estado de entrega e confiança que surge a partir da qualidade da conexão e que favorece a autorregulação e a microrregulação psicomotora, seguindo os quatro tempos da fórmula da vida – tensão-carga-descargarelaxamento- , a partir da concepção reichiana sobre a teoria carga-descarga, alcançando o quarto tempo – relaxamento – que é comum ao estado de amorosidade e de entrega. Esse conceito aqui citado foi nomeado pela Formação Aión como Economia Tônico-Energética (ETE).

O estudo assistido permite ao psicomotricista tomar consciência de suas defesas inconscientes, que tem a influência do conceito reichiano de couraça. Para Reich, a soma das forças recalcadoras de defesa é vista como as couraças psiquícas. Segundo ele, a “couraça funciona sobre a forma de atitudes musculares crônicas e fixas” (Reich, 1975, p. 313). Essa compreensão é um elemento-chave para os aspectos técnicos e teórico-metodológicos da abordagem psicomotora aqui apresentada.

Segundo Reich (apud ANTUNES, 2022), a couraça está relacionada às defesas recalcadoras ao nível dos bloqueios corporais musculares, por analogia, podendo entender a influência das defesas corporais na Psicomotricidade, que está ao nível da expressão psicomotora. Dessa forma, consideramos dois tipos de defesas: as que estruturam pela dinâmica da musculatura e as que se estruturam ao nível da expressão psicomotora. Pode-se dizer que todo bloqueio da expressividade psicomotora e da rigidez muscular contém a história e o significado de sua origem.

A partir de tal concepção, o trabalho corporal sobre a musculatura vai se tornar parte da estratégia de intervenção psicomotora: a desculpabilização da expressividade psicomotora e o afrouxamento das tensões musculares é visto como um equivalente do afrouxamento da censura e da eliminação do recalque.

Um dos recursos básicos da prática indica a necessidade de uma postura afetiva do psicomotricista, no sentido de que tanto a ativação da pulsão quanto a eliminação das resistências deveriam ser feitas gradualmente, sem afobações, dentro do que é assimilável pelo sujeito.

Além disso, o estudo assistido permite a análise da qualidade de conexão e contato como uma atitude amorosa e nutridora e traz um profundo sentimento de pertencimento e dignidade.

A raiz do método está na observação dos nossos mínimos estados perceptivos, incluindo as potências minúsculas do corpo, as microexpressões, as pequenas percepções internas e externas ao nível das microrregulações psicomotoras. Assim, gerar um estado de atenção sutil à comunicação não verbal (a esses processos é uma tarefa importante no percurso formativo do psicomotricista na perspectiva do Método Aión de Psicomotricidade).

A essência do método está em profunda conexão com as microexpressões corporais, que se expressam pelos marcadores corporais, e levamos em consideração toda forma de expressão: o tom da voz, a postura corporal, o gesto, o contato visual, a produção da fala e da mímica e a expressividade psicomotora.

A intenção da formação é capacitar o psicomotricista para intervir no manejo da técnica para que possa flexibilizar e integrar as defesas corporais inconscientes, que permitam um acompanhamento e uma intervenção psicomotora ao nível da expressividade corporal e simbólica, proporcionando maior integração na relação esquema e imagem corporal.

A bússola do método

A bússola do método é o manejo da economia tônico-energética (ETE), o que permite ao psicomotricista uma maior compreensão sobre a estrutura da dinâmica psicomotora (DEP), conhecida como ‘arco psicomotor’, possibilitando a pendulação frente à ativação/desativação/acolhimento dos processos psicodinâmicos e energéticos e à leitura dos processos pulsionais e volativos, o que permite uma maior compreensão sobre a dinâmica dos processos corporais inconscientes.

O método permite uma compreensão simples dos processos de intervenção do psicomotricista, tanto ao nível simbólico da expressão psicomotora pela via do brincar, do jogo e pela expressão espontânea, quanto num outro nível de intervenção corporal, seja pelo toque direto e indireto no músculo, seja pelo toque nas articulações no sentido de contensão, seja pela flexibilização e integração das defesas corporais ao nível corporal e da expressividade simbólica.

Para tanto, o ETEgrama foi desenvolvido como uma ferramenta que permite evidenciar as variações do tônus e da economia tônico-energética (ETE), em que o psicomotricista vai realizando um estudo do que é encontrado em termos de tônus muscular ( eutonia, hipotonia e hipertonia), percebidos nos quatro tempos: tensão-carga-descarga-relaxamento.

O resultado é uma representação corporal esquemática das variações tônicas, presente no instrumento de avaliação funcional da leitura da economia tônico-energética (ETE). Esta ferramenta tem um impacto sobre o processo formativo, levando o formando a entrar em contato com os aspectos de si mesmo muito profundos.

Esse instrumento de avaliação dialoga com a proposta de avaliação psicomotora de Mattos e Kabarite (2020).

O ETEgrama se dá a partir da construção da representação do esquema e da imagem corporal e da compreensão da análise das resistências psicomotoras, sendo evidenciado pelo estudo do tônus e das variações da economia tônico-energética (ETE).

Nesse processo, há a valorização do toque corporal para flexibilizar as resistências musculares presentes nas defesas corporais ao nível do trabalho de intervenção psicomotora. O toque no músculo é um tipo de toque que procede uma intencionalidade de resposta afetiva no sentido do abrandamento ou do acirramento ao nível da economia tônico-energética (ETE). Esse tipo de toque é uma forma de estratégia terapêutica e tem objetivos diferentes. Já o toque nas articulações ou toque proprioceptivo traz a sensação de contensão, limite, fronteira e borda corporal, o que é fundamental como toque restaurador e integrativo nos casos dissociativos de imagem corporal.

Geralmente o toque é fundamental nos casos de traumas complexos, de desenvolvimento e de impacto, ou nas comorbidades do estresse pós-traumáticos, incluindo os casos de vulnerabilidade afetivas, nos quais o toque pode ser integrador, restaurador e nutridor do senso de segurança na relação do psicomotricista com o cliente, permitindo atenção à pendulação psicomotora, consequentemente, levando a uma maior auto e microrregulação para evitar os picos de hiperativação e sobrecarga energética no esquema corporal, bloqueando a expressão espontânea, afetiva e amorosa do corpo.

O método coloca no centro o trabalho com a respiração, por entender que todo o bloqueio emocional gera um bloqueio muscular e respiratório e que interfere na dinâmica da estrutura psicomotora (DEP), incluindo os estados de atenção sutil à comunicação não verbal e a consciência corporal.

Assim, é fundamental ao psicomotricista a sensibilização da sensopercepção, que é uma espécie de decodificação corporal ao nível sutil e energético, ao nível da intuição do psicomotricista, o que favorece o rastreamento do que se sente em um nível corporal profundo. A sensopercepção facilita a conexão intuitiva, empática e amorosa no processo formativo desse método.

O contato terapêutico amoroso dá suporte para as estruturas psicomotoras mais vulneráveis, com sintomas de instabilidade, agitação, inibição, dissociação e imobilidades psicomotoras que podem estar presentes nas mais diferentes sintomatologias de base. Essa é uma visão importante no processo  terapêutico, na diagnose psicomotora e na orientação da técnica do método.

Aspectos centrais do método

  1. Capacidade de estar em presença amorosa e conexão afetiva e poder acompanhar os processos volitivos internos e expressivos;
  2. Decodificação da leitura da dinâmica da estrutura psicomotora (DEP) e a leitura da economia tônico-energética (ETE);
  3. Flexibilização das defesas corporais e a auto e microrregulação da expressividade espontânea, afetiva e amorosa;
  4. Manejo da corregulação da transferência e da contratransferência corporal;
  5. Aspectos psicodinâmicos e energéticos da pendulação psicomotora;
  6. Capacidade do psicomotricista de ter uma presença amorosa e responsiva;
  7. Promoção da auto e da microrregulação psicomotora;
  8. Desenvolvimento da sensopercepção;
  9. Construção das narrativas simbólicas;
  10. Foco na decodificação das microexpressões corporais, valorizando a comunicação não verbal ao nível de uma linguagem simbólica e expressiva;
  11. Rematrização da experiência corporal no processo clínico.

Competências e habilidades a serem desenvolvidas na Formação no Método Aión

  • Aprofundar conhecimentos e práticas fundamentados no tripé formativo (teóricometodológico, prático-vivencial e supervisão);
  • Ampliar o conhecimento sobre a importância dos fatores psicomotores na intregração e organização do eixo e das bases psicomotoras como tempo, espaço, ritimo, coordenadas viso-espacial, óculo-manual, lateralidade, equilíbrio estático e dinâmico entre outros;
  • Desenvolver as condições de entendimento teórico-prático-vivencial sobre continente, borda, fronteira, margem e limite no desenvolvimento psicomotor;
  • Analisar o “como” no processo formativo do Método Aión;
  • Favorecer o despertar para a delicadeza e o estado da arte;
  • Favorecer a decodificação da linguagem da comunicação não-verbal para as microexpressões corporais e para a fenomenologia das pequenas percepções;
  • Aprimorar uma atitude amorosa e restaurativa, capaz de desenvolver um estado de observação atenta e inclusiva;
  • Sensibilizar para a integração funcional da unidade indissociável entre corpo-psiquismo-energia;
  • Dar acesso irrestrito e incondicional ao sentimento de pertencimento e de integração do senso de alteridade, reciprocidade e dignidade;
  • Decodificar as microexpressões corporais e os processos psicodinâmicos e energéticos do desenvolvimento psicomotor;
  • Intervir no manejo da técnica para que possa flexibilizar e integrar as defesas corporais inconscientes, que permitam um acompanhamento e uma intervenção psicomotora ao nível da expressividade corporal e simbólica, proporcionando maior integração na relação esquema e imagem corporal;
  • Valorizar o toque corporal para flexibilizar as resistências musculares presentes ao nível do trabalho de intervenção corporal;
  • Sensibilizar o psicomotricista para a sensopercepção;
  • Promover a autorregulação e microrregulação, visando a descarga psicomotora através do toque na musculatura e no trabalho psicomotor pela via do brincar;
  • Favorecer o contato com a natureza como forma de autorregulação psicomotora;
  • Aprimorar o manejo da transferência e da contra-transferência no processo formativo corporal.

O método nos apresenta uma circularidade Aión de orientação da técnica

  1. A sensopercepção que está presente na base da organicidade do olhar terapêutico;
  2. A busca pelo sentido e o significado que sublinha a importância da simbolização ao nível simbólico e corporal;
  3. A modulação afetiva, a partir da pendulação psicomotora (ativação/desativação/acolhimento);
  4. A leitura e a decodificação da psicodinâmica energética, a partir da economia tônico- energética (ETE) em consonância com a dinâmica da estrutura psicomotora (DEP), permitindo uma análise pulsional e uma intervenção amorosa e nutridora;
  5. O ‘como’, assim como Wilhelm Reich o concebeu, deve estar no bojo da pergunta e é o al icerce da investigação metodológica: como expressamos nossa existência mais profunda (eu expresso);
  6. A integração e a flexibilização das defesas corporais;
  7. A Ontologia do Intimo que está na dinâmica central do método e ilumina as potências minúsculas do corpo, os afetos e as microexpressões corporais e a microrregulação psicomotora;
  8. O potencial do ínfimo que só é possível porque é iluminado pelo ‘como’, permitindo ao psicomotricista intervir de modo direto nas pequenas pendulações ao nível da dinâmica da estrutura psicomotora (DEP);
  9. O manejo da técnica favorece a integração entre esquema e imagem corporal;
  10. O estado de atenção sutil à comunicação não verbal.

Caminhos de constituição do método

A construção do Método Aión de Psicomotricidade foi gradual. No início, o trabalho era mais instintivo e menos estrutural. O que levou ao método foi a necessidade de sistematização da organicidade do trabalho com a clínica psicomotora.

Ao longo dos anos, o método foi evoluindo de uma olhar tecnicista, primeiramente vindo da área da reabilitação motora com a fisioterapia, para a construção de um olhar sobre o corpo e os processos terapêuticos, percebendo muito cedo que o ‘corpo conta a sua história’. No início, houve a influência do pensamento transdisciplinar e holístico. E não poderia deixar de agradecer à formadora em Psicomotricidade, Martha Lovisaro, que teve uma contribuição incalculável na minha formação como psicomotricista.

Lentamente foram criadas pontes com o pensamento da Filosofia da Diferença e pela influência do pensamento transdiciplinar e holístico inicial da minha formação.

Cabe evidenciar que, no início da fundamentação do Método Aión, fui buscar conexão com o pensamento da Filosofia da Diferença, incluindo o conceito de tempo, assim descrito, pelo pensador pré-socrático Heráclito de Efeso, sobre o conceito de Aión, nomeado por este pensador em suas obras completas: “O tempo Aión está na gênese do tempo, uma criança brincando, um reinado de infância”.

Essa dimensão sobre esse conceito de tempo está presente no método na organicidade da clínica. Nessa seara filosófica, há, portanto, influência do pensamento heraclitiano, bergsoniano, espinosista, nietzschiano e deleuziano. Esses filósofos ajudaram a criar pontes com o pensamento da imanência no campo psicomotor.

Fui absorvido pelo pensamento freudiano, sobretudo pelos estudos metapsicológicos, uma psicanálise pulsional. Assim , o encontro com o pensamento funcional reichiano veio em direção aos estudos psicoenergéticos naturalmente. Destaca-se no método a contribuição do pensamento funcional  reichiano quanto ao conceito da teoria carga-descarga, a qual tomei como base para a construção do conceito de economia tônico-energética (ETE); conceito que dá base científica juntamente com a dinâmica da estrutura psicomotora (DEP), iluminado pelo ‘como’ (eu expresso), que facilita a intervenção do potencial do ínfimo na DEP, buscando a auto e a microrregulação psicomotora. Também houve a influência do conceito de couraça muscular por Reich.

O conceito de ontologia do ínfimo nasceu no despertar da sensibilidade e da curiosidade para as pequenas percepções e microexpressões observadas no trabalho como psicomotricista durante quinze anos na creche/escola. Houve uma aproximação com a estética poética matogrossense de Manoel de Barros, onde extraí o conceito sobre as pequenas importâncias e as desimportâncias da matéria de poesia: o corpo.

A sensopercepção, presente na base da organização da experiência sensorial e psicomotora, é um processo valioso na formação do Psicomotricista, focado na experiência da sensação e na percepção dos processos volativos internos.

E importante destacar a influência do pensamento de Peter Levin da experiência somática (SE) e o seu trabalho com o trauma. Houve influência também da escola de trauma da Narrativa Expositiva (NET), uma psicoterapia breve focada no trabalho do trauma que foi criada na Alemanha por Frank Neuner, sobretudo com as trocas e experiência com colegas psicoterapeutas do método Hakomi Motrix, um tipo de psicoterapia mindfulness centrada no corpo, o que contribui para a atenção sutil à comunicação não verbal no método Aión.

Todos esses atravessamentos teóricos, práticos e vivenciais permitiram que essa metodologia fosse construída gradativamente, a qual é nomeada como uma contribuição para o campo científico da Psicomotricidade.

O método busca flexibilizar as defesas corporais e integrar o esquema e a imagem corporal, o que remonta um trabalho com as bases psicomotoras na relação terapêutica, ancorado por uma atitude do psicomotricista amorosa, o que permite uma postura de aceitação restaurativa do senso de pertencimento à dignidade.

Entende-se que a origem dos traumas de relação está na base da desvinculação precoce. O método toma o trauma como uma ferida emocional primeira.

A organicidade do método depende de uma atitude amorosa e responsiva do psicomotricista, incluindo a importância do silêncio – aprendi que o silêncio é um parte importante na organicidade da clínica. Aprendi que a arte, a música, a poesia e a natureza são modos de nos aproximarmos da essência da criação.

Muitas pessoas contribuíram, incluindo colaboradores, em especial a Katia Bizzo Schaefer, além dos colegas que me fizeram pensar nas diferentes áreas que fui percorrendo ao longo do tempo. Sempre busquei intercessores para dialogar: os colegas da Psicomotricidade, da Filosofia, da Psicanálise e os terapeutas reichianos que problematizaram o método que fui criando na medida que íamos aprofundando nossas conversas. Aos poucos, fui titulando toda a construção do método e suas influências.

Nessa jornada, testemunhei lágrimas sentidas e alegrias compartilhadas. Eu não posso precisar quão gratificante tem sido essa jornada.

Assim, eu agradeço esses melhores anos de trabalho, que me permitem ter maior compreensão sobre o método aqui apresentado.

Deixo as melhores esperanças de que aquilo que contribui para a Psicomotricidade continue existindo nessa jornada.

Os colaboradores, os monitores, os formandos, os já formados, aqueles que já são psicomotricistas e já trabalham com o método Aión, os que fazem supervisão, aqueles que são atendidos na clínica em Psicomotricidade, os que estudam a clínica do trauma pelo viés da abordagem psicomotora no trauma (APT) trazem consigo o Método Aión em Psicomotricidade e são beneficiados pela essência do trabalho realizado.

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